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Crítica - A Vida não é um Musical, o Musical

Escrito por Thelmo Fernandes . Publicado em BLOG

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Crítica: A Vida Não é um Musical – o Musical

Tania Brandão

Posted on 6 de maio de 2018

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A dúvida e o musical

 
Duvido, logo existo – eis um lema preciso para definir o homem do nosso tempo. Ele se instalou graças a dois vetores, o acesso universal à instrução e a longa tradição histórica de traição humana, a antiga prática do homem-lobo-do-homem, quer dizer, aquele velho conselho da mamãe: desconfie sempre, não confie em ninguém.

 

A capacidade de pensar e a habilidade para desconfiar resultaram na dúvida ambulante que somos. A expansão da habilidade fez surgir uma iconoclastia feroz, avessa às grandes ilusões e aos mitos dourados: a mania de parodiar e rir dos tradicionais contos infantis. O gosto demolidor é o eixo ao redor do qual se move A vida não é um musical – o musical, de Leandro Muniz, cartaz em fim de temporada no Teatro de Arena do Sesc Copacabana. Vale correr para ver, é muito divertido.

 

O trabalho se destaca na temporada de saída por causa da ousadia formal: o texto e a trilha são originais, as músicas foram compostas por Leandro Muniz e Fabiano Krieger. O resultado final é impactante, trata-se de uma avalanche de irreverência temática muito divertida, ainda que exista, ao fim e ao cabo, uma atitude política explicita, engajada, um limite para a atitude crítica.

 

A trama é simples, mas muito elaborada. A ação começa com uma paródia, a divertida caricatura da vida no pequeno vilarejo encantado Vale Dísnei, um lugar paradisíaco no qual todos são felizes, se amam, cantam e dançam, como acontece nos desenhos infantis. Ao redor do reino, uma terra de lixão e violência, o nosso tempo, desconstrói a placidez.

 

A fuga de uma personagem para o mundo sombrio ao redor permite a mudança do foco, do simulacro de conto de fadas para as agruras do presente. Aponta-se para um lugar de derrisão absoluta, uma cloaca humana, um grande lixão existencial, social, político, mas a tragédia não se instala. Afinal, a peça é uma comédia musical, alguma solução positiva há de haver, como nos desenhos de Disney.

 

O estratagema da fuga, do reino encantado para o lixão, prática convencional nos contos de fada para estruturar a trajetória do herói, aciona a espiral crítica diante do aqui-agora. A princípio, o resultado é muito irreverente – a divertida demolição da atitude ingênua diante do mundo. Ela é estruturada a partir de divertidos mal entendidos, pois as cândidas figuras não entendem a carnificina existencial em vigor nas terras do lixão, as terras brasílicas.

 

A direção, assinada por João Fonseca e Leandro Muniz, aciona de forma direta o cálculo corrosivo do texto – assim o espetáculo, tanto na direção de cena como na direção de ator, se projeta como herdeiro do velho teatro de revista, pois direciona todos os esforços para a histórica irreverência carioca.

 

A verve percorre a cenografia, de Nello Marese, capaz de desenhar um tosco reino das fadas rodeado, sob nuvens de tecido tnt, por um vigoroso lixão. Também transparece nos figurinos, de Carol Lobato, marcados pela mesma dualidade. É sublinhada pela requintada luz de Paulo Denizot, hábil traçado das exigências da ação. E se inclina para uma atitude atual, de interlocução com a plateia, ao convocar o público para participar, embora discretamente, da trama.

 

É curioso perceber como esta dimensão irreverente impregna o trabalho dos atores. As interpretações são orgânicas, vivas, intensas, mas partem da densidade e da concentração interiores para o flerte velado com o público, numa aproximação sensível ousada.

 

Daniela Fontan, encarregada do divertido papel de Liz, a princesa-mãe espevitada, domina a cena graças a uma combinação explosiva de ingenuidade simulada e espírito questionador. Marcelo Nogueira, no príncipe bobo Martin, desenha o contraponto eficiente como o partner submisso, ingênuo, arrastado por equívocos. Brilhante nos números musicais, a desenvoltura do ator transparece ainda no desenho do Deputado Malaquias e de Getúlio Vargas.

 

Thelmo Fernandes apresenta os vilões com maestria absoluta – as sutilezas das composições do Governador, do Fanho, de Dom João e Donald Trump garantem por si momentos de extrema diversão. A partir de soluções sutis, o ator tem o mérito de materializar em cena muito do presente massacrante de hoje, princípios individualistas de negação daquela grandeza existencial necessária à saúde coletiva.

 

Nando Brandão surpreende na construção sofisticada do político idealista contraditório, fraco, um ser a um só tempo atuante e ingênuo (Gabriel), figura especular do príncipe bobo; impressiona ainda por sua performance física plástica. Joana Mendes, Augusto Volcato, Flora Menezes, Ingrid Gaigher, Ester Dias e Udvlê Procópio se engajam na tradução de múltiplos personagens com resultados fortes.

 

Vale destacar a graça da coreografia, muito integrada à ação dramática, e a excelência dos músicos em cena. Fabiano Krieger (guitarra), Gustavo Salgado (teclados), João di Sabbato (bateria), Daniel Silva (baixo e violoncelo) e Rafael Alves (sopros) sustentam a partitura e alguma interação com os atores: além de eficientes, conseguem ser divertidos.

 

A proposta só não se torna uma celebração absoluta do saudável exercício da dúvida e da liberdade humana porque o limite crítico fica contido por uma nítida visão partidária, uma visão da realidade ditada pelo jogo político atual. De toda forma, se o exercício da dúvida não se transforma em ritual demolidor, eficiente celebração do ser humano livre, entregue à sua mais ampla capacidade de pensar a vida sem cangalhas ou arreios, o espetáculo sela um compromisso nobre com a dimensão crítica do presente.

 

E, o melhor de tudo: a montagem fortalece a linha de musicais originais nacionais. Assim, a prática da dúvida, ainda que circunscrita, liberta um ímpeto teatral novo, interessante compromisso com a liberdade do ser no nosso tempo. Mesmo que esta liberdade seja apenas uma frágil liberdade teatral, efêmera invenção cênica.